segunda-feira, 18 de abril de 2011

o daltonismo

evito a misantropia quando as lentes coloridas estão inteiras
mas começam a ficar velhas e tenho que trocá-las.
nesse meio tempo vejo tudo a corpo nu

bom, bom, aí toda aquela história de botar-fé vira do avesso
e até quem (acho que) conheço
me deixa sozinha no verde a vai pro azul.

quarta-feira, 30 de março de 2011

ironia

do meu poema romântico, não espero metade
daquela dança que gira
em palavra e verso-esfera

já são todos assimétricos e eu já não tenho dedo
pra catar milho bom de recitar
ou mesmo me inspirar
com o aroma da manhã bonita

não sai mais nada daqui
porque aqui dentro só se inspira a louca varrida
quando a coisa tá feia de vez
e olha que a beleza às vezes confunde
mas confunde mesmo
até não dar mais pra saber o que é crise e o que é paz.

meu deus, tá quase tudo se
a-
riscando.

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

canção da água do rio

já não me pedem poesia
nem meu corpo
nem meu tempo

porque o meu tempo agora é outro
é mais presente do que os sonhos queriam

a insistência virou colega fria
de uma alma fria como aquela
que não sabia o que queria
e se perdia
e se perdia

as sedes que deixei me deixaram sem querer
ainda andam por aí
mas não reconheço nada

a minha cegueira já foi embora
com aquela alma fria de outra hora
que não sabia o que queria
e se perdia
e se perdia

já não me pedem poesia
nem meu corpo
nem meu tempo

porque o meu tempo agora é outro
porque o meu tempo agora é outro
porque o meu tempo aprendeu a ser só

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

a mulher de calcinha

a mulher de calcinha acordou sozinha. sentiu-se gravemente só. lavou o rosto com água gelada e tomou seu café preto. o mundo não ia muito bem econômica-política-social-mente, pelo que as letras sujas do jornal diziam. as festas de natal, sim, iam muito bem. as competições pelo melhor enfeite iam de vento em popa em todo o país. bocejou.
seu telefone tocou:
- sim?
- bom dia, querida!
- oi, mãe.
- como você está?
- sentada.
- e o trabalho?
- o trabalho e o tempo não têm se dado bem.
- oh, filha... quando você vai parar? quando vem nos ver?
- você sabe bem que uma coisa não leva à outra, não é?
- tenho fé que leve.
- semana que vem estarei aí.
- ótimo, filha!
...
- sentimos sua falta, querida...
- semana que vem, tá bom?
- está bem.
- tchau.
- um beijo, filha! bom trabalho!
a mulher de calcinha levou as palmas das mãos aos olhos e os pressionou com muita força. seus lábios se comprimiam mais e mais e seu peito tremia. enfim, soluçou. limpava as lágrimas com muita pressa, com medo da solidão notar o acontecido e gargalhar às suas custas. soluçou.
levantou-se da poltrona e foi até o banheiro. fitou-se no espelho com muita firmeza. ali ficou por algum tempo, até que os soluços cessassem e o peito voltasse a inspirar e expirar com consciência. então colocou as mãos sobre os seios. começou a acariciá-los até que seus bicos ficassem rijos. deu um longo beijo no espelho, deixou cair mais uma lágrima e foi trabalhar.

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

recado-passado sem prosa

trate-me como sempre foi que eu finjo que não mudei
toque-me com desejo que lhe faço doer
guarde seu sarcasmo que eu guardo os meus medos
faça seus planos e me conte, assim invento uns outros e os descrevo com detalhes
poupe-me das suas dúvidas que eu lhe poupo do que tenho certeza.

aí a corda bamba vai parecer um pouco mais firme e poderei caminhar sobre ela como se flutuasse.




terça-feira, 19 de outubro de 2010

eu-lírico

a vontade de escrever era diária. hoje me disponho a expor qualquer-coisa muito de vez em quando e, nessas vezes poucas, mais apago do que publico. penso que algumas outras atividades ganharam status-vital, enquanto esta, quase-tão aconchegante quanto meu silêncio, porém mais frágil, tem-se-perdido no nada. naquela fase de me perguntar os porquês, lembro da ansiedade. dos movimentos longos, dos mais curtos, da tensão. não sei, de verdade, se ela está escondida aqui, talvez dopada por um tempo, aguardando lá no fundo seu momento triunfal de acordar. deve estar domada por uma calma ainda crua. ainda sem pêlos e sem todos os dentes. como ela tem algum poder, também não entendo. não entendo muitas coisas e ainda me sinto triste por isso. mais uma prova da imaturidade. quando eu sentir, mas sentir mesmo, lá no fundo, que não é possível saber tudo, este será o dia da construção do busto da minha paz. será branco. e eu vou morar dentro dele pra sempre, no alto da montanha mais alta do mundo, onde não é possível respirar o que respiro hoje, mas só o que tem lá em cima.

domingo, 3 de outubro de 2010

[meu] ensaio sobre o gosto

das coisas que me agradam, algumas sofrem por um processo-de-afeto muito confuso que - ainda - me deixa perplexa.
primeiro, existe o meu gostar. indiscutível (por falta de argumentos ou excesso de em um lado só da balança). aí vem o mergulhar, que dura pouco e é bem intenso. depois cai num evitar, sem grandes esforços. é meio que um turn a blind eye pro que não deveria parecer coisa errada. então, o que era só um desvio vira desespero, uma ânsia absurda por distância. não posso ver, ouvir, tocar, nem mesmo lembrar, sem que meu corpo entre em colapso. só o fato d'essa reação anormal não estar sob meu controle já me deixa à flor da pele. essa fase também dura pouco. aí vem o branco: é como se nunca tivesse ouvido falar naquilo. até que os fatos começam a me levar à coisa novamente. um dia depois do outro, e lá vem ela se apresentar a mim. percebo, então, que gosto daquilo.
finalmente, é um gostar tranquilo, que quase sempre dura pro meu sempre.